O desafio das Familias Mosaico
- Detalhes
- Acessos: 184
Mosaico familiar
Afinal, quem sou eu no meio dessa confusão?
Quem sou eu? Dar uma resposta a essa pergunta não é tarefa fácil para crianças, adolescentes e jovens. De uns anos para cá, isso tem ficado mais confuso ainda.
Nas famílias de antes, estava bem claro quem era o pai, a mãe e os irmãos. Existia a lógica do “puxou ao pai...”, “igualzinho à mãe...” Hoje, esses contornos se ampliam e se dificultam. De acordo com novas estatísticas, de cada três ou quatro casamentos, um vai acabar em divórcio, com muita chance de se tornar em novo casamento. Esse fato infelizmente não muda muito no meio religioso.
Dentro de uma perspectiva tradicional, alguns defendiam a importância da identificação com a figura paterna, definida dentro de um modelo de família nuclear que se mantinha ao longo da vida da criança. Nesse modelo, o “pai biológico” e o “pai de criação” eram uma mesma pessoa. Hoje em dia, os divórcios acontecem cada vez mais cedo. Novos personagens compõem essas novas configurações familiares, trazendo muitas vezes confusão no exercício dos papéis familiares.
Quem casa de novo geralmente incorpora outro que, em muitos casos, traz filhos de outras relações. Torna-se comum ouvir “marido da mãe”, “mulher do pai”, “filhos do marido”, “filhos da mulher do pai”, “irmão por parte de mãe”, “avodrastos” e por aí em diante. Uma rede de parentes e meio-parentes que lembra um quebra-cabeça ou, para citar um termo usado pelos especialistas, a “família-mosaico”.
Será que este novo arranjo constitui novidade também no que diz respeito à formação da identidade do sujeito? Será que os filhos de famílias reconstituídas vivenciam um padrão diferente de formação de personalidade? Existiria algum prejuízo significativo em virtude da ausência dos pais originais e da substituição por outros personagens que tomam conta da nova cena familiar?
Muitos autores se dedicam a estudar o efeito das transformações da família na vida de crianças e adolescentes. Um bom número diz que ao se tornar um padrão, a nova família acaba também fortalecendo um novo modelo de adaptação e normatização de relações, diluindo as prováveis reações negativas. Ou seja, já que são muitas as crianças, adolescentes e jovens que passam por essa situação, só o fato de isso se tornar comum ajudaria na solução dos possíveis problemas. E que problemas seriam esses?
Nos consultórios de psicologia, o que se nota geralmente é que longe de se imaginar como pacífico e tranquilo, o divórcio é sempre encarado pelos filhos como algo traumático. Sempre causa um nível de estresse alto e perdas significativas.
Inicialmente, o próprio divórcio dos pais já provocou nas crianças uma sensação de ansiedade e confusão interna. A despeito de se defender a ideia do “divórcio amigável”, sempre será difícil para criança entender porque o pai e a mãe não convivem mais com ele, juntos. As explicações “adultas” não dão toda resposta necessária.
Passado este primeiro problema, temos, na maioria dos casos, a introdução de um novo personagem. Entre outras coisas, ele vem dividir a atenção do pai ou da mãe. A ruptura com a exclusividade do cuidado e afeto do pai ou da mãe, imposta pela presença de concorrentes no ambiente familiar, também é digna de atenção especial. A criança tem a missão de “aceitar bem” o novo integrante da família e “se comportar” para não “estragar tudo”.
Junto com isso, temos a reação do pai ou da mãe que não mora com o filho, que também reagirá à presença do(a) intruso(a). Especialmente porque este(a) estranho(a) conviverá e influenciará seu filho. A alternância ou deslocamento afetivo do pai/mãe para o novo padrasto/madrasta que chega poderá gerar uma verdadeira batalha.
Além disso, há o prejuízo das referências afetivas e morais, uma vez que cada um funciona de forma diferente. O que se percebe no final é uma maior permissividade dos pais, e como resultado disso um comportamento mais desafiador do filho, que acaba funcionando com uma moral dúbia, bem no momento que precisaria de força e direção.
Como pano de fundo, a situação o filho tem mais uma sua missão complicada. Além de aceitar, comportar-se bem para agradar o pai ou mãe enamorado(a), deverá apaziguar/mediar o ciúme do outro, ser um bom irmão para os filhos daquele(a) que chega e, de quebra, ceder espaço para a possibilidade de um novo nascimento na família. Se as coisas caminharem bem, em pouco tempo trocará de casa, para uma maior, dividirá espaço físico, tempo, atenção, alimento etc... Terá que administrar perdas de amigos, troca de escolas, afastamento de avós e tios originais, invasão de novos tios e avodrastos, e inserção em novos ambientes. Na maioria das vezes, ele tem pouca chance de opinar ou escolher. O autoritarismo adulto “para o bem” predomina na maioria das vezes.
Recomeçar é sempre desafiador e temerário, inclusive para as crianças e adolescentes. Dependendo de características pessoais, alguns vão se sair bem com as mudanças e adaptações, mas um bom número pode ter seu mundo interno prejudicado, inclusive com marcas até a vida adulta. A reação mais desafiadora é o comportamento de alienação psicoafetiva do ambiente familiar.
Nesse contexto, os significados das coisas e pessoas, por se alternarem cotidianamente e serem muitas vezes contraditórios, impõem à criança um movimento de desapego. Em algumas fases infantis, o apego é primordial. É só nos lembrarmos de casos abertos pela nova lei da guarda compartilhada que expõe/impõe a criança a situações de “mochileiros”, vagueando de uma casa para a outra. Crianças mais introspectivas e passivas poderão se “comportar muito bem”, mas sofrerão ainda mais com essas mudanças. Outras podem se tornar rebeldes e agressivas, denunciando a imposição dos adultos e o fracasso de seu novo mundo relacional.
Como religiosos, defensores de um padrão estável de relacionamentos, vale a pena estarmos atentos ao fato de que também cresce em nosso meio as famílias-mosaico. De certa forma, alem de outros lugares de convivência, a própria igreja será palco da presença desses personagens. Entre outras coisas, eles se compararão às outras crianças e adolescentes cujos pais ainda permanecem juntos, como uma família tradicional. O discurso da igreja em relação às famílias poderá ser mais um ingrediente perturbador para aqueles que enfrentam as turbulências provocadas pelos recasamentos dos pais.
O papel da igreja é sempre acolher, não importa a origem ou dramas das pessoas que a buscam. Desde as professoras do departamento infantil até o discurso do púlpito deve-se levar em conta a presença dessas crianças e adolescentes e os dramas que eles vivem. A igreja pode e deve oferecer um ambiente familiar: ser uma família que, em última instância, traduz para seus membros o equilíbrio e segurança necessários para uma vida feliz. Deve ser o local em que cada pessoa é amada incondicionalmente, onde todos se sentem iguais, participantes de uma grande família que nunca se separará!
Publicado na RA de Maio/2011.

